Delinqüência
política e outras barbáries
O despertar da população brasileira
nas manhãs do inverno em curso, no primeiro contato com
as manchetes e notícias que molduram o dia, é marcado
pelo sobressalto diante dos sucessivos descalabros do cotidiano
do Brasil. Os dias cinzentos da atual estação são
cenários perfeitos para o momento que vivemos. Na analogia
poética, o branco açúcar que adoça
o café do cidadão trabalhador, já majorado
pela inflação, contrasta com a feição
escura dos acontecimentos que assolam o país.
O episódio dramático que castigou o Estado do Pará,
mas com extensão em todo o Brasil, atingiu a sensibilidade
de cada brasileiro, diante da perversidade ocorrida na UTI da
Santa Casa de Belém do Pará. Não posso denominar
de outra forma: o óbito de centenas de bebês recém-nascidos
foi um genocídio.
Somos expectadores de inúmeros massacres contra seres humanos
no Brasil e no mundo, mas não há chacina mais revoltante
do que aquela que atinge recém-nascidos. Vidas que mal
chegaram, partiram. Foram aniquiladas pela irresponsabilidade
de quem governa, pela falta de critérios que deveriam nortear
a gestão pública.
Não estamos alçando uma questão restrita
ao Estado do Pará. Pelo contrário, a problemática
é de ordem nacional. Ela coloca à luz o caos que
é a saúde pública brasileira. Revela, por
inteiro, a incompetência administrativa e gerencial reinantes.
O caos da segurança pública é outro vetor
de desestabilização social e impõe verdadeiro
estado de sítio à sociedade brasileira. As polícias
militares, de maneira geral, são integradas por elementos
mal remunerados, que utilizam equipamento obsoleto e não
possuem o devido preparo para lidar com a população.
Uma tropa despreparada, mesclada por integrantes de formação
moral muito eclética, reflete um aparelho repressor do
Estado absolutamente incapaz de assegurar o direito de ir e vir.
Na guerra diária contra a criminalidade e o banditismo
que tomou conta dos grandes centros urbanos, alcançando
até mesmo as cidades de médio porte, a vítima
em muitos momentos é a própria população.
No flanco que diz respeito à atuação da Polícia
Federal, assistimos ricos e poderosos serem presos em razão
da eficiência e independência desta instância,
demonstrando a responsabilidade que assume diante dos escândalos
que abalam o Brasil.
Outro fato a ser destacado e que envolve igualmente a relevância
do papel desempenhado pela Polícia Federal foi traduzido
na decisão da Justiça de remeter ao Supremo Tribunal
Federal a decisão de investigar os titulares da Casa Civil
da Presidência da República e do ministério
da Justiça no contexto do inquérito conduzido pelo
delegado Sérgio Menezes, que apura o vazamento do dossiê
com gastos da gestão do ex-presidente Fernando Henrique
Cardoso.
Louvo o papel desempenhado pela Polícia Federal. Sempre
acreditei nessa instituição. Depositei todas as
minhas esperanças nesse funcionário de carreira
de Estado, com a certeza absoluta de que concluiria esse inquérito
indiciando os principais responsáveis pela delinqüência
praticada.
O Estado Democrático de Direito pressupõe ritos
processuais que não se caracterizam pela celeridade. O
objetivo é impedir que injustiças sejam perpetradas,
bem como que eventual julgamento possa ser sustentado por premissas
indispensáveis de correção e de justiça.
Reafirmo a minha crença de que, ao final, teremos uma solução
capaz de atender às expectativas da população
brasileira, a fim de que a impunidade não prevaleça
mais uma vez.
O famigerado dossiê formatado na Casa Civil para a intimidação
e a chantagem política é obra de delinqüência.
Por essa razão, não poderia cair no esquecimento,
muito menos ser ignorado pelas autoridades constituídas
e responsáveis do país.
Os atos de selvageria e delinqüência política
que se disseminam por todo o território nacional, muitas
vezes sob o beneplácito oficial, precisam ser interrompidos
imediatamente. O país precisa retomar a senda do respeito
às leis e padrões morais e éticos exigidos
numa democracia.
Senador Alvaro Dias - 2º Vice-Presidente do Senado,
vice-líder do PSDB.