“O presidente do STF agiu em
defesa de interesses privados ao mandar soltar, em menos de 48
horas, por duas vezes, o banqueiro e corruptor Daniel Dantas”.
Sempre é bom recordar. Recordar os bons momentos da vida,
os bons filmes, as músicas que marcaram, as boas leituras.
Também é bom recordar para não errar ou mesmo
para não dizer que não sabia dos fatos da política
-e da polícia.
Em 2007, durante um seminário sobre a função
social da terra, o ministro Eros Grau, do Supremo Tribunal Federal
(STF), afirmou que não estava lá para falar de justiça,
mas da “ordem”. De justiça, só o bispo
Dom Tomás Balduíno, também presente, poderia
falar. Grau falaria da ordem mercantil. Abordaria o tema dessa
forma porque são assim as leis no Brasil: feitas “não
para fazer justiça, mas para manter a ordem”.
O segundo fato que quero recordar é um artigo do jurista
Dalmo de Abreu Dallari, intitulado “Degradação
do Judiciário”, publicado em 8 de maio de 2002 pelo
jornal “Folha de S.Paulo”.
Dallari escreve que “nenhum Estado moderno pode ser considerado
democrático e civilizado se não tiver um poder Judiciário
independente e imparcial”. Caso assim não seja, o
que restará é a lei do mais forte. Raramente será
a lei do mais forte intelectual ou fisicamente, mas o mais forte
economicamente.
O artigo foi publicado na época em que o então presidente
Fernando Henrique Cardoso indicou Gilmar Mendes para ministro
do STF. Afirma Dallari que, se essa indicação viesse
a ser aprovada pelo Senado, “não haveria exagero
em afirmar que estarão correndo sério risco a proteção
dos direitos no Brasil, o combate à corrupção
e a própria normalidade constitucional”.
Gilmar Mendes era um funcionário subordinado a FHC, e foi
indicado ao STF antes mesmo de existir a vaga. Por que tamanha
afoiteza? Creio que uma das respostas está dada agora,
no caso Daniel Dantas.
Lembra o artigo de Dallari que Gilmar Mendes “especializou-se
em ‘inventar’ soluções jurídicas
de interesse do governo”, e que a serviço de FHC
“recomendou aos órgãos da administração
que não cumprissem decisões judiciais”. Quando
era da Advocacia Geral da União, “o dr. Gilmar Mendes
fez inúmeros pronunciamentos pela imprensa, agredindo grosseiramente
juízes e tribunais, o que culminou com sua afirmação
textual de que o sistema judiciário brasileiro é
um ‘manicômio judiciário’”.
O texto prossegue: “A par desse desrespeito pelas instituições
jurídicas, existe mais um problema ético. Revelou
a revista “Época” (22/4/2002, pág. 40)
que a chefia da Advocacia Geral da União, isso é,
o dr. Gilmar Mendes, pagou R$ 32.400 ao Instituto Brasiliense
de Direito Público -do qual o mesmo dr. Gilmar Mendes é
um dos proprietários- para que seus subordinados lá
fizessem cursos. Isso é contrário à ética
e à probidade administrativa, estando muito longe de se
enquadrar na ‘reputação ilibada’, exigida
pelo artigo 101 da Constituição”.
Na última semana, Gilmar Mendes, agora presidente do STF
(com o currículo que possui é de se perguntar: como
chegou a tal cargo?) agiu em defesa de interesses privados ao
mandar soltar, em menos de 48 horas, por duas vezes, o banqueiro
e corruptor Daniel Dantas.
O desrespeito à lei e à Constituição,
por parte de Mendes, foi tão violento que um grupo de juízes
assinou um manifesto contra o presidente do STF. Também
quero assinar este manifesto.
Recordo uma frase, que já usei outras vezes, de Paul Valery:
“Duas coisas ameaçam o mundo: a ordem e a desordem”.
Se a lei, como diz Eros Grau, é para manter a ordem, Gilmar
Mendes prefere a desordem.
Se a ordem, por ser injusta, ameaça o mundo, a desordem
ameaça muito mais, principalmente a desordem causada pelo
crime organizado, agora protegido por ação do presidente
do Supremo. Como afirmou Dallari, o combate à corrupção
corre sério risco. Dr. Rosinha, médico pediatra, é deputado
federal (PT-PR) e presidente do Parlamento do Mercosul.
dr.rosinha@terra.com.br
www.drrosinha.com.br
LUIS
PAULO...
Amigo é coisa pra se guardar
LUIS PAULO ROBERTO LUZIA SAUDADES...
DE AMIGOS
E FAMILIARES
Debaixo de sete chaves
Dentro do coração
Assim falava a canção
Que na América ouvi
Mas quem cantava chorou
Ao ver seu amigo partir
Mas quem ficou
No pensamento voou
Com seu canto que o outro lembrou
E quem voou
No pensamento ficou
Com a lembrança que o outro cantou
Amigo é coisa pra se guardar
No lado esquerdo do peito
Mesmo que o tempo e a distância
Digam não
Mesmo esquecendo a canção
O que importa é ouvir
A voz que vem do coração
Pois seja o que vier
Venha o que vier (venha o que vier)
Qualquer dia, amigo, eu volto a te encontrar
Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar
Você partiu sem dizer que iria...
Sem avisar ninguém, num piscar de olhos tudo se acabou...
Sua perda irreparável deixou em nós uma dor inconsolável...
Deixando em nossos corações o vazio da saudade, em
nossas mentes lembranças de momentos felizes.
Superando
a dor Momento Espírita
No dia 28 de julho de 1976, a cidade industrial de Tangshan foi
completamente arrasada por um terremoto apavorante. 300 mil mortos.
O fato ficou famoso como símbolo do colapso total das comunicações
da China naquela época.
A preocupação das autoridades era com a crise pela
morte de Mao Tsé Tung e duas outras importantes personalidades.
A notícia do terremoto acabou chegando ao governo através
da imprensa estrangeira.
Muitas mulheres ficaram sem marido e viram seus filhos desaparecer
em abismos profundos.
Chen foi uma delas. Naquela manhã de julho, antes de clarear,
ela foi despertada por um som estranho.
Era uma espécie de ronco surdo e um assobio, como se um
trem estivesse se espatifando contra as paredes da casa.
Quando ia gritar, metade do quarto cedeu e a cama onde estava
deitado o marido, foi tragada por um buraco enorme.
O quarto das crianças, que ficava do outro lado da casa,
como um cenário de um palco apareceu à sua frente.
O filho mais velho estava de olhos arregalados e boca aberta.
A menina chorava e gritava, estendendo os braços para a
mãe.
O filhinho pequeno continuava dormindo calmamente.
A cena à sua frente sumiu de repente como se uma cortina
tivesse caído.
Chen acreditou que estava tendo um pesadelo e se beliscou. Não
acordou.
Então, espetou a perna com uma tesoura.
Sentindo a dor e vendo o sangue, entendeu que não era um
sonho.
Gritou como louca. Ninguém ouviu. De todos os lados vinha
sons de paredes desmoronando e de móveis quebrando.
Ela ficou ali, com a perna ensangüentada, olhando para o
buraco enorme que tinha sido a outra metade da sua casa.
Seu marido e suas lindas crianças tinham desaparecido diante
dos seus olhos.
Sentiu vontade de chorar, mas não tinha lágrimas.
Simplesmente não queria continuar vivendo.
Vinte anos depois, contando esta história a uma jornalista,
Chen confessa que quase todo dia, ao amanhecer, ouve um trem roncando
e apitando, junto com os gritos dos seus filhos.
Os pesadelos a machucam, mas ela diz que os suporta porque neles
estão também as vozes dos seus filhos.
E quem pensa que Chen vive somente a lamentar e a chorar a perda
dos seus amores, engana-se.
Ela, junto a outras mães que perderam seus filhos no terremoto
de 1976, fundaram um orfanato, com o dinheiro da indenização
que receberam.
É um orfanato sem funcionários. Alguns o chamam
de uma família sem homens.
Vivem ali algumas mães e dezenas de crianças. Cada
mãe ocupa um aposento grande com 5 ou 6 crianças.
Os aposentos do orfanato foram decorados com uma infinidade de
cores, de acordo com o gosto das crianças. Cada quarto
com seu estilo de decoração.
Bem diferente dos orfanatos tradicionais da China.
Ao ser questionada como se sente hoje, naquele voluntariado, confessa
Chen: “muito melhor. Especialmente à noite. Fico
olhando enquanto as crianças dormem. Sento ao lado delas,
seguro suas mãos contra o meu rosto. Beijo-as e agradeço
a elas por me manterem viva. É um ciclo de amor. Dos velhos
para os jovens e de volta para os velhos”.
***
Por vezes, quando a dor nos visita, nos enclausuramos nela, acreditando
que a nossa é a dor maior do mundo.
O exemplo de Chen nos dá a dimensão da dor e nos
ensina como lidar com ela: atender o próximo que também
sofre.
Afinal, sempre que olharmos para trás encontraremos criaturas
mais intensamente feridas do que nós mesmos. E no atendimento
às suas feridas, encontraremos o alívio que buscamos.
Tudo porque o toque delicado do amor é o curativo perfeito
para as próprias chagas abertas no coração. Equipe de Redação do Momento Espírita
com base no cap. As mães que sofreram um terremoto, do
livro As boas mulheres na China, de autoria de Xinran, ed. Companhia
das letras.