Práticas
corsárias
“O Caribe é famoso muito
mais pela luminosidade de suas praias que pela luminosidade de
suas idéias” - Roberto de Oliveira Campos
Os aventureiros dos mares pilharam navios mercantes
e povoações costeiras em vários períodos
históricos. Ao longo dos séculos a pirataria grassou
na costa da Grécia e da Roma antiga alcançando os
portos da África do Norte, culminado nos saques ocorridos
nos idos dos séculos XVI e XVII aos navios no Mar do Caribe.
O mundo conheceu o ápice da pirataria nas ações
desfechadas por bucaneiros que utilizaram a Jamaica e a ilha de
Tortuga como base de apoio para suas operações criminosas.
Nos tempos atuais nos defrontamos com novas práticas corsárias:
a pirataria dos projetos legislativos. Faço referência
ao Projeto sancionado por Sua Excelência o presidente Lula
tornando obrigatórias no ensino médio as disciplinas
de Filosofia e Sociologia.
Sem qualquer preciosismo, sou autor do Projeto de Lei do Senado
nº 04, de 2004, cujo objetivo era alterar dispositivo da
Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional para
inserir o estudo dessas disciplinas nos currículos do ensino
médio.
Considerei uma medida necessária para a consolidação
da base humanista no que se refere aos conhecimentos adquiridos
pelo educando. A Filosofia e a Sociologia exercem uma função
de articulação do indivíduo e contribuem
tanto para o reconhecimento da identidade social como para uma
compreensão crítica da relação homem-mundo.
O projeto de minha autoria, após sua aprovação
no Senado, seguiu para a Câmara dos Deputados, tendo sido
designado um relator da base de apoio ao Governo. A seqüência
é pouco original. O projeto dormitou nos escaninhos governistas
até que aquela Casa aprovasse proposta legislativa similar.
Ser escanteado no exercício do mandato e em plena atividade
da produção legiferante é falta passível
de reprovação. Esse episódio é uma
reprise da atuação e postura da gestão do
presidente Lula.
Em 2002 apresentei projeto prorrogando por 30 anos o prazo para
o trabalhador rural requerer sua aposentadoria por tempo de serviço.
Esse prazo se esgotaria logo mais, precisamente no mês de
julho. Minha proposta tramitou até que o líder do
governo a retirasse para análise. Não a devolveu
e a engavetou. No início da legislatura passada a reapresentei.
Enquanto isso o Governo encaminhava Medida Provisória regulando
o assunto. Foi aprovada recentemente. Seus relatores, tanto na
Câmara quanto no Senado, foram parlamentares integrantes
do Partido dos Trabalhadores.
O Governo Federal, que ampliou o seu estoque de primeiro escalão
para a marca de 38 ministros de Estado e que possui dois Ministérios
para planejar - o presente e o futuro - não planeja rigorosamente
nada. Na maioria das vezes, aguarda sob as marquises ampliadas
da Esplanada dos Ministérios o último momento para
resolver questões absolutamente previsíveis que
dispensariam a edição de Medidas Provisórias.
É uma ação deliberada que denota profundo
desprezo pelos projetos de autoria do Poder Legislativo e afronta
a Constituição Federal na enxurrada insana de Medidas
Provisórias.
O corso pós-moderno incorporou vertente própria
e segue singrando os mares da insensatez, pirateando idéias
e projetos. Em que pese o flagrante desrespeito, sinceramente
passo ao largo. Não me incomoda a ‘espoliação’,
desde que se tornem leis e beneficiem a população.
O que não aceitamos são as práticas corsárias
em curso que afrontam a Carta Maior aviltando o Parlamento e o
povo brasileiro.
Senador Alvaro Dias - 2º Vice-presidente do Senado,
vice-líder do PSDB.