Vão-se
os dedos
Lá se foi a ministra do Meio Ambiente,
Marina Silva. O trocadilho dos chargistas é perfeito: Marina
ficou “sem ambiente” no governo Lula.
Ela tinha lá seus defeitos, era radical na reprovação
aos transgênicos, uma posição mais dogmática
que racional, mas o fato é que o desmatamento na Amazônia
foi substancialmente reduzido em sua gestão.
Marina pediu demissão, além de outros fatores, porque
foi atropelada pelo trator Dilma Roussef, a gerente do Brasil
em obras de Lula. Esta é uma das poucas figuras que se
retira deste governo por vontade própria, por princípios
que falam mais alto do que o apego ao cargo. Pela porta da frente,
ela sai engrandecida de um governo cada dia menor do ponto de
vista ético. E não se diga que o fez por motivos
eleitoreiros, pois ela não precisa sequer fazer campanha
para se reeleger senadora pelo Acre em 2010.
Solícito conforme a conveniência, quando se trata
de passar a mão na cabeça de figuras políticas
acusadas de pequenos ou grandes desvios de comportamento, o presidente
talvez tenha, lá no íntimo, se arrependido de ter
nomeado Marina para o Meio Ambiente, e tratou de levar adiante
o processo sua de fritura – em fogo brando. Sabendo de antemão
qual seria a reação internacional à saída
dela, Lula diz cinicamente que ficou irritado com o seu intempestivo
pedido de demissão. Mas o objetivo, a manutenção
das aparências, ao menos perante os mais ingênuos,
que não são poucos, terá sido atingido.
Em uma semana durante a qual são anunciadas as denúncias
à Justiça de dois governadores, dois ex-governadores,
do ex-ministro Silas Rondeau e talvez de mais três deputados
federais por suposto envolvimento no esquema de fraudes descoberto
pela operação Navalha da Polícia Federal;
avolumam-se as suspeitas em torno do deputado federal Paulinho
da Força, da base de apoio do governo no Congresso, cuja
central sindical foi favorecida pelo veto presidencial à
sua fiscalização pelo Tribunal de Contas da União
(TCU); o senador biônico Wellington Salgado é denunciado
por suposto crime tributário, o senador e ex-governador
de Goiás, Marconi Perillo (PSDB-GO), passa a responder
ao quarto inquérito no Supremo Tribunal Federal; e a empresa
francesa Alstom é suspeita de ter pago propinas no Brasil
para obter facilidades em negócios com o governo, não
soa nem um pouco estranha a recente crítica de Lula ao
TCU.
Segundo Lula, o TCU – que mostrou a péssima qualidade
dos serviços executados durante a operação
Tapa-Buracos nas estradas federais, em janeiro de 2006 - e o Ministério
Público Federal travam as obras no País “porque
aqui se parte do pressuposto de que todo mundo é ladrão”.
Pelas palavras presidenciais se pode supor que todos os que tentam
defender a legalidade no Brasil são pedras no sapato. Lula
detonou Marina Silva; se pudesse, acabaria com o TCU.
Autoritário e avesso ao contraditório ao ponto de
reagir com injustificável violência verbal quando
contrafeito, o presidente, que já forneceu sobejas amostras
da pouca importância que dá à virtude, à
boa governança e àquilo que certamente considera
filigranas éticas, daria um belo ditador. Não fossem
os enormes obstáculos institucionais à frente, ele,
fazendo jus à sua admiração por ditadores,
inclusive brasileiros, já teria mandado tudo às
favas para estender seu mandato ao infinito.
O mais triste de tudo é ver jovens e crianças submetidos
a este interminável desfile de hipocrisia em que se sacrificam
a verdade e a competência. Cansada das sabotagens e de ver
triunfar as nulidades, em boa hora Marina Silva se foi.
Subverteu-se o ditado: vão-se os dedos, ficam os anéis.
Luiz Leitão
luizmleitao@gmail.com
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