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Ausência de um projeto nacional

No turbilhão de acontecimentos perdemos a capacidade de reivindicar e direcionar nossas atenções para o âmago da crise que assola o País. Não seria pretensioso a ponto de enfeixar nossas vulnerabilidades e identificar um único fator como o responsável pelas turbulências enfrentadas pelo Brasil.
São muitas as lacunas a serem preenchidas em todos os quadrantes da vida pública. A correção de rumos se impõe o quanto antes. Num calidoscópio é possível apontar a ausência de um projeto nacional que contemple, sem evasivas, os alvos de longo prazo como uma das disfunções mais graves em curso.
A falta de estratégias e ações que viabilizem um amanhã minimamente planejado e desejado, não apenas em matéria econômica, nos assalta e nos embaraça diante do futuro, mesmo o mais próximo.
A cultura vigente privilegiou as “brigadas de incêndio”, integradas por gestores sem compromisso com a sociedade e recrutados por critérios eminentemente partidários. Esse ambiente turvou a visão estratégica e de planejamento das instâncias governamentais.
O cotidiano nacional é mesclado pela audácia verbal e prepotência administrativa, agregando ingredientes que combinam a quebra da autoridade moral e de princípios elementares da ética política, passando pela institucionalização da mentira em capítulos onde a resistência à apuração dos fatos resvala, por fim, na total e completa falta de rumos.
Os cenários mais prováveis traçados por consultoria especializada em análises prospectivas (Macroplan) nos colocam entre o “crescimento inercial” e o estuário da “baleia encalhada”, no horizonte temporal dos próximos anos. O exercício de cenarização se presta à redução do grau de incerteza sobre o futuro e deve balizar as ações para a elaboração de um projeto nacional de longo prazo. Infelizmente, não há por parte do governo nenhuma sinalização que nos permita visualizar um projeto para o País.
Identificamos tão somente o projeto de poder, calcado no interesse eleitoreiro, inclusive com antecipação do processo sucessório, a meu ver irresponsavelmente deflagrado pelo presidente da República.
A nossa fragilidade é tamanha que não há consenso sequer em torno das medidas a serem adotadas para combater um eventual surto inflacionário. Não é preciso ser economista para constatar que a manutenção das taxas de juros num patamar estratosférico já causou estragos consideráveis tanto à sociedade brasileira como ao setor produtivo.
A matriz produtiva brasileira está enferma, possui deficiências estruturais muito graves: juros elevadíssimos; carga tributária asfixiante; custos trabalhistas exagerados; leis antiquadas que paralisam e obstruem as relações fiscais e de trabalho, para citar apenas algumas deformidades.
A elevada carga tributária, combinada com forte expansão e má qualidade do gasto público, figura na vanguarda dos entraves ao nosso crescimento. Nos últimos cinco anos, as despesas correntes do governo federal tiveram crescimento de 94%, enquanto o crescimento nominal do Produto Interno Bruto (PIB), no mesmo período, foi de 73%.
A lacuna de um projeto de nação finda hasteando o pavilhão nacional em forma de uma biruta rasgada numa pista sem ranhuras e propícia a desastres de proporções indefinidas. O diagnóstico e as linhas mestras de um projeto nacional requerem a convocação da sociedade.
Esperamos que o debate da próxima sucessão presidencial seja capaz de alçar à discussão um projeto para o País capaz de despertar na população a esperança de que o Brasil se viabilizará, proporcionando vida digna a todos. A única alternativa para desencalhar a baleia é a formulação de um projeto dessa envergadura.
Senador Alvaro Dias - 2º vice-presidente do Senado, vice-líder do PSDB.



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