Congresso...
“balcão de negócios”
Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves
A fidelidade partidária foi, judicialmente,
estabelecida. Aquilo que os políticos não foram
capazes de decidir na Constituinte, nem em quase 20 anos de atividade
após sua promulgação, foi executado pelo
Supremo Tribunal Federal. A partir de agora, quem mudar terá
de devolver o mandato, que pertence ao partido e não ao
eleito.
Embora aplaudida pelo presidente Lula, a definição
legal-comportamental mereceu sua crítica por ter sido feita
ao longo de um mandato e não antes das eleições,
para que os eleitos soubessem previamente as regras. Chefe do
balcão de negócios em que foi transformado o Congresso
Nacional, o presidente, evidentemente, não deve ter gostado
da decisão mas, como não é conveniente falar
contra, preferiu a critica temporal.
A classe parlamentar brasileira precisa abandonar o vício
de deixar para depois as decisões importantes e de agir
casuísticamente. A Constituinte e o Congresso deveriam
ter definido claramente sobre a fidelidade, não deixando
a questão em branco, como fizeram. Isso facilitou que os
governos negociassem com parlamentares e os retirassem das posições
político-ideológicas que defenderam para conseguir
o voto do eleitor. Senadores, deputados (federais e estaduais)
e vereadores, amparados pelas brechas legais, “venderam”
suas posições originais em troca de benesses que
podem ser para suas regiões ou - o pior - para si próprios
ou seus apaniguados.
Os políticos em geral precisam se conscientizar de que
exercem a atividade por delegação do povo, que lhes
deu os votos. Não podem dispor do mandato como se fosse
mera moeda disponível ao “quem dá mais”.
A mudança de partido, muitas das vezes, leva um eleito
da oposição para a situação. Essa
guinada de 180 graus, com certeza, não representa o pensamento
daqueles que os elegeram. Portanto, constituiu-se numa descaracterização
da representação, até mesmo em traição
ao eleitorado.
É bem verdade que, muitas vezes, as direções
partidárias também não respeitam os estatutos
e os princípios ideológicos do partido, gerando
mal-estar entre os filiados. Isso se dá em função
da fraqueza dos partidos políticos brasileiros, usados
somente como ‘cartórios’ para a viabilização
das eleições. Agora, com a força adquirida
através da fidelidade, as direções devem
ter a sensibilidade suficiente para não “engessar”
os filiados através de decisões de caciques. E os
detentores de mandato, já que não podem sair, têm
de ser conscientes de seus direitos e deveres, além de
organizados para, sempre que necessário, mudar a direção
partidária relapsa, descumpridora do estatuto ou caciquista.
Se todos agirem com ética e responsabilidade, a fidelidade
servirá para construir grandes partidos e normalizar a
nossa estabanada atividade política.
Com o estabelecimento da fidelidade, temos tudo para tornar mais
decente a vida partidária. Fortalecidos os partidos, deixarão
eles de ser meras peças da cena eleitoral, tornando-se
partícipes do processo político.
Seus filiados deverão encará-los como agremiações
permanentes e serem vigilantes quanto à possibilidade de
falcatruas por parte dos dirigentes. E, finalmente, como ficará
mais difícil fazer negociações para descaracterizar
o resultado das eleições, os governos também
deverão desmontar o “balcão de negócios”
que enoja o povo e mancha a cena política nacional. Os
negócios desse balcão são pagos com o dinheiro
publico, que deveria ser aplicado em obras e serviços para
a população, jamais na cabala de votos de congressistas.
A democracia brasileira é carente de aperfeiçoamento.
A fidelidade pode nos levar a partidos realmente existentes. Oxalá
não se encontre outras fórmulas para continuar enganando
o povo...
O autor é dirigente da ASPOMIL (Associação
de Assistência Social dos Policiais Militares de São
Paulo).
aspomilpm@terra.com.br