Quem
paga o pato dos ruídos na comunicação?
Marco Antônio Eid
O competente e premiado publicitário paulistano
Ruy Marum enviou-me interessante texto, de autoria, creio, desconhecida,
que revela insólito diálogo de um homônimo
seu, o antológico Barbosa, e um ladrão que tentava
furtar patos no quintal da casa do emérito brasileiro.
Na história, certamente uma ficção, Rui Barbosa
surpreendeu o gatuno e lhe disse: “Oh, bucéfalo anácrono!
Não o interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes
palmípedes, mas sim pelo ato vil e sorrateiro de profanares
o recôndito da minha habitação, levando meus
ovíparos à sorrelfa e à socapa. Se fazes
isso por necessidade, transijo; mas se é para zombares
da minha elevada prosopopéia de cidadão digno e
honrado, dar-te-ei com minha bengala fosfórica bem no alto
da tua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei
à qüinquagésima potência que o vulgo
denomina nada”. O ladrão, confuso, apenas perguntou:
“Dotô, eu levo ou deixo os pato?”
Bom humor à parte, a divertida narrativa ilustra muito
bem o quanto os ruídos na comunicação podem
ser nocivos. Ao lê-la, foi inevitável estabelecer
analogia com as recentes acusações do presidente
Luiz Inácio Lula da Silva à mídia e aos brasileiros,
aos quais imputou culpa, respectivamente, pela divulgação
apenas de más notícias e por macular o nome do País
no Exterior.
Sem entrar no mérito da liberdade de pensamento e expressão,
que garante à imprensa e aos cidadãos a plena e
legítima prerrogativa de externar seus sentimentos e percepção
da conjuntura política e socioeconômica, um fato
é incontestável: com todo o respeito que merece
por sua trajetória como líder sindical, fundador
de um partido político, parlamentar e presidente da República,
incluindo ações positivas em sua administração,
Lula deixou de considerar algo fundamental nas críticas
à mídia e aos brasileiros que viajam a outros países:
seu governo não tem uma política pública
de comunicação. E esta, numa era em que informação
é o bem mais precioso da humanidade, é tão
importante quanto a economia, a saúde e o ensino.
Quantas coletivas de imprensa fez o presidente desde o início
de seu primeiro mandato? Como se relacionam os setores de turismo,
a diplomacia econômica e o próprio governo com os
veículos de comunicação e os formadores de
opinião internacionais? Nem a sistematização
de press releases, a mais banal ação de assessoria
de imprensa, se faz (a quem interessar possa, alguns países
do Caribe, menores do que a Ilha de Marajó, têm sofisticadas
políticas de comunicação. Assim, não
é mera coincidência que recebam mais turistas estrangeiros
do que os oito milhões de quilômetros quadrados que
compõem nosso território).
Qual a estratégia de relacionamento do Governo Lula com
os correspondentes estrangeiros acreditados no Brasil? Por que
não se realiza com os interlocutores do governo um programa
de Media Training, que até pequenas empresas recebem de
suas agências de comunicação. Esse treinamento
evitaria que ocupantes de cargos do primeiro escalão expusessem
suas divergências e trocassem farpas pela imprensa, gerando
insegurança no mercado, e que ministros e ministras tivessem
surtos de incontinência verbal perante câmeras e microfones.
Definitivamente, o brasileiro não conseguirá relaxar
e tampouco gozar as prerrogativas da livre e correta informação
sem que se respondam todas essas perguntas.
Afinal, quando são muitos os ruídos na comunicação
governamental, quem paga o pato é a sociedade, que fica
tão desnorteada quanto o ladrão da casa de Rui Barbosa.
E por falar neste grande brasileiro, é oportuno resgatar
uma de suas primorosas frases, esta verdadeira e emblemática:
“A palavra é o instrumento irresistível da
conquista da liberdade”.
O autor, jornalista, é diretor de Operações
da Ricardo Viveiros & Associados e autor do livro “Entre
o poder e a Mídia” (M. Books) e co-autor, juntamente
com o jornalista Ricardo Viveiros, de “O signo da Verdade”
(Summus Editorial).